DATA: 24.07
HORÁRIO: 14:00
Não, isto não era um tipo de consulta para empresa nem uma série de algum software a ser decodificado. Isto é o que recebo, via e-mail, um dia antes de assistir o Projeto Máquina do Tempo – O Farol – do grupo OPOVOEMPÉ. O localizador é o meu código, como eu seria identificado na recepção do Hotel Sheraton, local do início da apresentação com data e horário marcado.
Na recepção, somos avisados que o público sai de dois em dois a cada vinte minutos, por isso o horário marcado. Ali recebemos um MP4 cada um, a recepcionista o liga e surge um som calmo com intervalos de uma pessoa falando que nossa presença é muito importante. Encaminhados à uma saleta e sentados com as poltronas viradas para uma TV passando um programa qualquer, a recepcionista entrega um pequeno questionário para mim e para outra pessoa que vai assistir a apresentação comigo. O questionário é objetivo e trata de quanto tempo perdemos usando aparelhos tecnológico e ao nos transportarmos de um canto para o outro da cidade. É interessante a forma como o questionário foi desenvolvido, pois te coloca dentro do jogo e em relação direta com o desconhecido que vai passar os próximos 90 minutos ao seu lado. Ficamos um tempo por ali ainda, e quando noto uma câmera nos filmando, a narração do meu MP4 é justamente: para sua segurança o ambiente está sendo filmado.
Foto: Divulgação
A recepcionista avisa que a conexão chegou e nos encaminha para uma moça bem vestida, como uma executiva e uma mala vermelha, signo que os identificará durante todo o percurso.
Neste momento começa, de fato, a jornada e somos levados para um mundo de reflexão. Quantas coisas nós perdemos por tratarmos a vida de modo passageiro, como tudo é efêmero e como estamos desacostumados a fincar raízes em determinados espaços por longos períodos. A escolha do espaço para esta performance é, deveras, muito pertinente, pois estamos em um dos maiores centros comerciais de São Paulo - dentro do Hotel Sheraton, integrado ao complexo WTC e Shopping D&D, ao lado da TV Globo. Vemos pessoas apressadas, indo para lá e para cá, com seus celulares, tablets, notebooks, telas para todos os lados. A vida passando e as pessoas tomando café para manter os olhos bem abertos e vidrados nas telas frias.
No alto de um dos prédios, é possível observar do lado oposto ao centro empresarial, do "lado de lá" da Marginal Pinheiros, um conjunto habitacional Cingapura e uma grande favela. O contraste de mundos tão diferentes e tão próximos. E o precioso tempo de observação que passa despercebido no dia a dia.
Mas a vida é apressada e saimos rapidamente do prédio. A perfeita sincronia entre as ações da atriz e do áudio do MP4 é tão grande, que dá impressão de que ela está falando ao vivo o que é ouvido no MP4.
Sempre guiados por performers com malas vermelhas e placas de EM ESPERA ou EM MOVIMENTO, chegamos à estação Berrini de trem. Mais uma vez o sentido de fricção é posto e reflexões surgem a todo momento. Acima da Marginal Pinheiros, podemos ver centenas de carros passando, igualmente apressados aos frequentadores dos trens, ditam a tônica da era moderna.
Conduzidos pelos performers, chegamos à estação Presidente Altino e o contraste é nítido. A calmaria do lugar, o modo como a atriz nos conduz a observar crianças brincando na rua, um homem numa rede, um cortiço sossegado. Um contraste de modo de vida mesmo, tanto financeiro como de fruição.
A direção é sutil e, como em toda performance, as apresentações são sempre uma diferentes das outras, principalmente por colocar o público em jogo constantemente e cada um tem uma maneira de reagir.
Os figurinos são bem inteligentes e nos levam desde os executivos às pessoas vestidas mais discretamente para o cotidiano. As malas vermelhas são soluções interessantes também pela simples identificação que o público faz ao avistar um ator/performer e sua mala do lado.
A sonoplastia é o grande trunfo deste projeto, que conduz magicamente o público pelo MP4 e dialogo exatamente com cada espaço, seja privado ou público. Juntamente, os atores estão colados à sonoplastia em sincronia das ações com o áudio, ajudando a conduzir e envolver o público. A execução de todas as tarefas era de uma justeza impressionante, com os atores controlando o tempo com muita maestria.
Toda a performance nos questiona quanto tempo nos dedicamos ao que está atrás da tela ou da linha, a importância do observar e não simplesmente passar pelos lugares. O texto final no áudio nos sugere pararmos, que seja um minuto por dia e, apenas observar e não pensar em nada. Como uma ditadura tecnológica nos faz refém e perder-se o valor do real. É um convite para vivermos a vida real, mas sem negar a virtual, afinal durante toda a apresentação e em todos os momentos o grupo usou da tecnologia.
Além disso, é um espaço para notarmos quanto tempo perdemos em trajetos. O meio no caminho entre casa-trabalho, trabalho-casa, casa-estudos, estudos-casa, etc. Será que podemos aproveitar estes momentos de deslocamento sem nos dedicarmos simplesmente ao celular, tablet, ou qualquer outro tipo de tela? O caminho não é tão ou mais importante que o destino ou a chegada? O convite que OPOVOEMPÉ nos estende remete à frase de Guimarães Rosa: "Felicidade se encontra em horinhas de descuido".
Na recepção, somos avisados que o público sai de dois em dois a cada vinte minutos, por isso o horário marcado. Ali recebemos um MP4 cada um, a recepcionista o liga e surge um som calmo com intervalos de uma pessoa falando que nossa presença é muito importante. Encaminhados à uma saleta e sentados com as poltronas viradas para uma TV passando um programa qualquer, a recepcionista entrega um pequeno questionário para mim e para outra pessoa que vai assistir a apresentação comigo. O questionário é objetivo e trata de quanto tempo perdemos usando aparelhos tecnológico e ao nos transportarmos de um canto para o outro da cidade. É interessante a forma como o questionário foi desenvolvido, pois te coloca dentro do jogo e em relação direta com o desconhecido que vai passar os próximos 90 minutos ao seu lado. Ficamos um tempo por ali ainda, e quando noto uma câmera nos filmando, a narração do meu MP4 é justamente: para sua segurança o ambiente está sendo filmado.
Foto: Divulgação
A recepcionista avisa que a conexão chegou e nos encaminha para uma moça bem vestida, como uma executiva e uma mala vermelha, signo que os identificará durante todo o percurso.
Neste momento começa, de fato, a jornada e somos levados para um mundo de reflexão. Quantas coisas nós perdemos por tratarmos a vida de modo passageiro, como tudo é efêmero e como estamos desacostumados a fincar raízes em determinados espaços por longos períodos. A escolha do espaço para esta performance é, deveras, muito pertinente, pois estamos em um dos maiores centros comerciais de São Paulo - dentro do Hotel Sheraton, integrado ao complexo WTC e Shopping D&D, ao lado da TV Globo. Vemos pessoas apressadas, indo para lá e para cá, com seus celulares, tablets, notebooks, telas para todos os lados. A vida passando e as pessoas tomando café para manter os olhos bem abertos e vidrados nas telas frias.
No alto de um dos prédios, é possível observar do lado oposto ao centro empresarial, do "lado de lá" da Marginal Pinheiros, um conjunto habitacional Cingapura e uma grande favela. O contraste de mundos tão diferentes e tão próximos. E o precioso tempo de observação que passa despercebido no dia a dia.
Mas a vida é apressada e saimos rapidamente do prédio. A perfeita sincronia entre as ações da atriz e do áudio do MP4 é tão grande, que dá impressão de que ela está falando ao vivo o que é ouvido no MP4.
Sempre guiados por performers com malas vermelhas e placas de EM ESPERA ou EM MOVIMENTO, chegamos à estação Berrini de trem. Mais uma vez o sentido de fricção é posto e reflexões surgem a todo momento. Acima da Marginal Pinheiros, podemos ver centenas de carros passando, igualmente apressados aos frequentadores dos trens, ditam a tônica da era moderna.
Conduzidos pelos performers, chegamos à estação Presidente Altino e o contraste é nítido. A calmaria do lugar, o modo como a atriz nos conduz a observar crianças brincando na rua, um homem numa rede, um cortiço sossegado. Um contraste de modo de vida mesmo, tanto financeiro como de fruição.
A direção é sutil e, como em toda performance, as apresentações são sempre uma diferentes das outras, principalmente por colocar o público em jogo constantemente e cada um tem uma maneira de reagir.
Os figurinos são bem inteligentes e nos levam desde os executivos às pessoas vestidas mais discretamente para o cotidiano. As malas vermelhas são soluções interessantes também pela simples identificação que o público faz ao avistar um ator/performer e sua mala do lado.
A sonoplastia é o grande trunfo deste projeto, que conduz magicamente o público pelo MP4 e dialogo exatamente com cada espaço, seja privado ou público. Juntamente, os atores estão colados à sonoplastia em sincronia das ações com o áudio, ajudando a conduzir e envolver o público. A execução de todas as tarefas era de uma justeza impressionante, com os atores controlando o tempo com muita maestria.
Toda a performance nos questiona quanto tempo nos dedicamos ao que está atrás da tela ou da linha, a importância do observar e não simplesmente passar pelos lugares. O texto final no áudio nos sugere pararmos, que seja um minuto por dia e, apenas observar e não pensar em nada. Como uma ditadura tecnológica nos faz refém e perder-se o valor do real. É um convite para vivermos a vida real, mas sem negar a virtual, afinal durante toda a apresentação e em todos os momentos o grupo usou da tecnologia.
Além disso, é um espaço para notarmos quanto tempo perdemos em trajetos. O meio no caminho entre casa-trabalho, trabalho-casa, casa-estudos, estudos-casa, etc. Será que podemos aproveitar estes momentos de deslocamento sem nos dedicarmos simplesmente ao celular, tablet, ou qualquer outro tipo de tela? O caminho não é tão ou mais importante que o destino ou a chegada? O convite que OPOVOEMPÉ nos estende remete à frase de Guimarães Rosa: "Felicidade se encontra em horinhas de descuido".

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