Foto: Divulgação
Um Número,
texto de Caryl Churchill, e que recebe direção de Pedro Neschling, tem como
pano de fundo o existencialismo – as ações, sentimentos e vivências de um
indivíduo. Bernard I (Pedro Osório) descobre que seu pai Salter (Pedro Paulo
Rangel), fez muitos clones dele e, que ele próprio, é um clone de um filho
original. Churchill vai além da discussão científica de clonagem e, traz à
questão da identidade do ser humano, sua personalidade e o que envolve ser cada
um de nós como somos.
A encenação
preguiçosa e televisiva não empolga e deixa escapar entre os dedos um texto
onde poderia ser realizado um trabalho mais apurado. A movimentação no espaço,
juntamente com os corpos dos atores, não escapa da “câmera” não existente no
teatro. As amarrações das cenas são lineares e previsíveis, tornando a peça um
tanto monótona.
O recurso
da projeção é utilizado também como ferramenta de amarração das cenas, de
maneira disforme com uma sonoplastia igualmente deslocada da encenação. Estas
projeções criam um grau que não existe, nem se encaixa na peça. Contudo, a
iluminação não compromete. Sem criar grandes efeitos, ilumina e revela muito
bem as ações.
Houve
também um equívoco na condução (ou não condução) dos atores, principalmente nos
personagens/clones interpretados por Pedro Osório. A compreensão de que ora ele
era Bernard I, ora Bernard II não estava clara e dava impressão de que era o
mesmo personagem, que apenas troca de roupas. Só há uma leve mudança quando um
terceiro clone aparece e percebe-se esta de maneira sutil. Pedro Paulo Rangel
está muito bem no papel de pai, que alterna em momentos de conflitos e ironia,
usando muito bem sua capacidade de modulação da voz.
O cenário
de Gilberto Gawronski, criado com cadeiras espalhadas e penduradas pelo palco
remetem às muitas identidades e fragmentos de um mesmo ser. Muitas destas
cadeiras estavam somente com algumas partes, não inteiras, como se algo
faltasse para completar aquela identidade. A ideia, que dialoga diretamente com
o texto, não é apropriada pela encenação e vira apenas um objeto de decoração,
não utilizável.
Ao final da
peça, lembro-me do aviso do funcionário da instituição. Reflito a questão da
identidade e do indivíduo, no humanismo e alteridade que envolve o teatro, e
chego à conclusão de que só os grandes sabem ser grandes quando algo os abate.

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