segunda-feira, 23 de julho de 2012

Quando a Identidade é Extinta - crítica da peça "Um Número"

Foto: Divulgação

Antes de iniciar Um Número no Sesc Belenzinho, um funcionário do teatro, pede paciência ao público, pois Pedro Paulo Rangel está com sua saúde debilitada. Tal atitude faz o espectador ser mais condescendente e não exigir o máximo de tal ator. Igualmente, mostra o quão belo é o teatro, afinal é aquele ator, naquele momento, vivendo o agora, emprestando seu corpo/voz a um personagem no presente e, não podendo deixar de lado suas próprias limitações.
Um Número, texto de Caryl Churchill, e que recebe direção de Pedro Neschling, tem como pano de fundo o existencialismo – as ações, sentimentos e vivências de um indivíduo. Bernard I (Pedro Osório) descobre que seu pai Salter (Pedro Paulo Rangel), fez muitos clones dele e, que ele próprio, é um clone de um filho original. Churchill vai além da discussão científica de clonagem e, traz à questão da identidade do ser humano, sua personalidade e o que envolve ser cada um de nós como somos.
A encenação preguiçosa e televisiva não empolga e deixa escapar entre os dedos um texto onde poderia ser realizado um trabalho mais apurado. A movimentação no espaço, juntamente com os corpos dos atores, não escapa da “câmera” não existente no teatro. As amarrações das cenas são lineares e previsíveis, tornando a peça um tanto monótona.
O recurso da projeção é utilizado também como ferramenta de amarração das cenas, de maneira disforme com uma sonoplastia igualmente deslocada da encenação. Estas projeções criam um grau que não existe, nem se encaixa na peça. Contudo, a iluminação não compromete. Sem criar grandes efeitos, ilumina e revela muito bem as ações.
Houve também um equívoco na condução (ou não condução) dos atores, principalmente nos personagens/clones interpretados por Pedro Osório. A compreensão de que ora ele era Bernard I, ora Bernard II não estava clara e dava impressão de que era o mesmo personagem, que apenas troca de roupas. Só há uma leve mudança quando um terceiro clone aparece e percebe-se esta de maneira sutil. Pedro Paulo Rangel está muito bem no papel de pai, que alterna em momentos de conflitos e ironia, usando muito bem sua capacidade de modulação da voz.
O cenário de Gilberto Gawronski, criado com cadeiras espalhadas e penduradas pelo palco remetem às muitas identidades e fragmentos de um mesmo ser. Muitas destas cadeiras estavam somente com algumas partes, não inteiras, como se algo faltasse para completar aquela identidade. A ideia, que dialoga diretamente com o texto, não é apropriada pela encenação e vira apenas um objeto de decoração, não utilizável.
Ao final da peça, lembro-me do aviso do funcionário da instituição. Reflito a questão da identidade e do indivíduo, no humanismo e alteridade que envolve o teatro, e chego à conclusão de que só os grandes sabem ser grandes quando algo os abate.