A primeira postagem desse blog é um convite que ouvi na última terça (08/05) numa conversa entre terceiros, onde um disse ao outro para "aventurar-se mais". Tomei este convite para mim: aventurar-se. Percebi que aventurar, no sentido da minha vida, é eu me expor. Não sei se quero realmente me expor, mas quero criar um outro tipo de comunicação com o mundo, mostrar o que penso do meu jeito, com as minhas palavras, as minhas DeLivres Reflexões.
Abaixo texto produzido no Curso de Crítica Teatral, ministrado por Kil Abreu na SP Escola de Teatro.
"A Construção" de Franz Kafka, com Caco Ciocler
Direção: Roberto Alvim.
Foto: Andre Lessa
A impressão que se tem quando inicia-se a peça A Construção é de uma continuidade de 45 minutos, do mesmo diretor com o mesmo ator, respectivamente Roberto Alvim e Caco Ciocler. Não pela temática da peça, que são distintas, e encenação de poucos movimentos e baixa luminosidade, características do Club Noir, mas sim pela construção do personagem de Ciocler, que parecia mostrar a mesma angústia nas duas peças, utilizando-se de entonações e expressões muito semelhantes.
A peça se inicia
com um homem questionando, a princípio, uma construção que parece física. Mas a
encenação claramente toma essa construção como a construção do ser, do
indivíduo, um homem que tenta edificar-se dentro do buraco em que se encontra.
Um homem tão desesperado na tentativa de encontrar sua morada interior, que
chega a projetar-se para fora de corpo com a imagem de um homem soturno, que
aparece na frente de uma luz forte a fim de criar um contorno, e mostrar que
aquele homem não passa de uma imagem da cabeça do próprio personagem, como um
alter ego. A procura de encontrar-se chega ao auge quando o personagem
utiliza-se do corpo, de forma concreta, tentando mesclar-se forçosamente com a
silhueta de seu corpo marcado no chão, lembrando o yin yang separados
fisicamente e a vã tentativa de união entre consciente e inconsciente, razão e
emoção, equilíbrio e desequilíbrio, luz e escuridão.
Ao longo da
peça, a impressão inicial de grande semelhança entre os dois trabalhos de Alvim
e Ciocler, esvai-se e o texto muito bem dito dá lugar à atenção total para esta
peça, A Construção. O texto, aliás, é
construído com uma partitura vocal muito detalhada e minuciosa, com pausas
lógicas e ilógicas, respiração, frases diretas ou entrecortadas. Detalhes que
fazem o texto ter muito sentido e acreditar na angustia do personagem.
A encenação de
Alvim não surpreende dentro daquilo que já se espera dele e do Club Noir em
questões de linguagem. A penumbra, a sucinta movimentação em cena, o uso de
pouca cenografia, tudo isto faz de Alvim um encenador muito diferente do comum,
porém nada de inovador dentro da sua própria forma, por isso o uso recorrente
no meio teatral da expressão “se viu uma peça do Alvim, já viu todas”. Apesar
disto, a iluminação em conjunto com a cenografia, traz um dado bem interessante
à peça quando coloca no fundo da cena um labirinto luminoso em forma de uma
digital de um dedo, estampando a confusão e desespero do personagem.
Da mesma forma
que o personagem faz um caminho cíclico durante a peça, Alvim faz do seu teatro
o mesmo caminho, podendo chegar à mesma conclusão do personagem em sua última
fala, de que “tudo continuou inalterado”.
